Por favor, me negue o cumprimento.


SORRIA!

....

...são pedaços de papel, folhas de cadernos, guardanapos sujos e restos de cabeça insone...

Leia da forma que achar melhor, não tenha compromisso com nada. Eu também não tenho.


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ARME-SE MAIS!



Não possuo nenhuma expectativa maior em relação às pessoas. Convivo com elas na sua justa medida.

O impossível na raça humana são justamente as pessoas.

Definitivamente, o silêncio não é dos inocentes.

Por mais que eu pense bem ou mal das pessoas, elas sempre me surpreendem.

O Blog é uma "Carta de Intenções" raramente cumprida.

Eu vivo dos meus desequilíbrios* Copyright Nicka.

Sempre teremos Paris....

Toda mulher deveria ter quatorze anos.(Nelson Rodrigues)

Fez-se da vida uma aventura errante (Vinicius de Moraes)

A calma é inimiga da perfeição

"Não importa. Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor" Samuel Beckett

"Toda mulher devia ser a Sandra Bullock"

"A Tsunami é Aqui!"

"Sou uma espécie de Glória Magadan da vida real"

"O chato em essência não existe...O chato é, antes de tudo, uma visão do outro..."

"A fecundação é muito parecida com o garçom que mistura leite ao café. Apenas isso. O início da gravidez é um café com leite."

"A Internet, repito, imbeciliza as pessoas."

"O que as pessoas chamam cultura não é senão um termo pitoresco para a sua ignorância." Saul Bellow.

"Quanto mais conheço analisandos, mais desprezo a Psicanálise."

"Dormir de dia é um suicídio inconcluso"

"O uísque é como um GATO engarrafado. O melhor amigo do Homem" Vinícius e Geraldo

"A vida é como executar um concerto de violino ao mesmo tempo em que se aprende a tocar o instrumento"Samuel Butler

"A pior forma de solidão é a companhia de um paulista" Nelson Rodrigues

"Ser me ocupa bastante" A. Gide

"Nada como a brancura cadevérica de um Pé"

"Acordar é como um renascer com as cartas marcadas

"A fé sem liturgia não tem o fulgor, não tem nada feérico, é como uma fé apagada, inexplicável, pequena, dúbia".
"Matar-se é fazer poesia!".

"'Quando homens pequenos lançam grandes sombras, é porque a noite está chegando" Nathaniel Lee

"Só o suicida morre dignamente".

Caminho de cabeça baixa pela praia da vida catando uma esperança.

Todos os dias são para mim meu último dia. Um dia, sem me dar conta, meu dia será o último para todos. .

O Orkut é uma espécie de lembrança e alerta virtual para um possível não vivido. .

30.9.05

Ela

Ia dizer o nome dela, mas não vou não porque é conhecida demais, já conversamos demais e muitas coisas aconteceram. Juramos até um dia tormarmos 'um Chopes' juntos (o que acabou nunca rolando). O tempo aproxima e afasta pessoas. Situações vão acontecendo e nos jogando para lá e para cá. Teve namorado no meio, briga, uma confusão dos diabos. Depois tudo amainou como a noite que cai em remanso.

Parei de visitar seu sítio por mil motivos e por motivo nenhum. Falta de tempo, esquecimento, preguiça... cada hora uma coisa. Hoje fui lá. Fui e fiquei triste. Achei a coisa toda muito amarga. Debaixo de uma falsa aparência de "crescimento", vi ressentimento, vi mágoa, rancor, até um certo ódio contido. O que está acontecendo? O que aconteceu com essa menina que sempre se deu tanto em seu sítio virtual?

O que faz as pessoas se transformarem? Perderem a sua inocente irreverência? A vida, imagino, vai acumulando coisas [fatos, dados] e transformando pessoas. Acabando com a doce e sagaz inocência mesmo cheia de maldade. Será que o tempo sempre piora as pessoas ? Todas ou só algumas? Devo estar piorando também, mas preferia piorar sozinho... nas outras, ver coisas melhores. Pena.
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Pesquisando

Continuo pesquisando. Às vezes eu dou uma sumida e pensam que eu parei. Não parei. Verdade que paro de vez em quando [por causa da minha inconstância], mas não parei dessa vez. A pesquisa está indo devagar porque ando sem dinheiro, comprado poucos livros e a internet não é confiável para se pesquisar. Você encontra várias informações [contrárias] na internet. Não tem as fontes, etc. Na internet, definitivamente não.

Já achei, acreditei piamente, que a internet era o que havia de ideal como meio de pesquisa [e poderia mesmo ser]. Mas não é. Dia desses tive problemas incríveis com um poema atribuído a Clarice Lispector e quase divulgo uma informação incorreta. Depois dessa então, agora é que não confio mesmo. E a pesquisa a que me proponho é muito difícil, tem que ser feita com calma, com muita atenção. São muitas linhas, muitas coisas parecidas. Até entre os conhecedores existem divergências ou interpretações diferentes.

Não é só isso. Ainda que seja uma pesquisa pequena, para uso meu apenas, uma coisa simples, não encontro tudo nos livros, tenho que ir para o campo, ver e ouvir os depoimentos e manifestações de quem trabalha com isso. Portanto, calma, digo a mim mesmo. Dessa vez vai ter que ser mais devagar.

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28.9.05

Brasil brasileiro

Que ninguém fique me cobrando coerência não. Não sou e não quero ser coerente. A contradição é minha bandeira e meus desequilíbrios, minha maneira de andar. É porque eu estou lendo um texto de Maria Bethânia, uma outra coisa da Nana Caymmi e acabo me lembrando de Ary Barroso, Caribé, Jorge Amado, Baden Powel, Villa Lobos....

E quando eu penso nessas pessoas (como às vezes penso em outras) eu fico babando pelo Brasil, babando o ovo do Brasil, pensando que não tem terra como o Brasil. Eu sei que já escrevi que o Brasil era lixo, que eu queria ter nascido em Viena ou em qualquer lugar da Suíça. Falei porque estava sentindo aquilo naquela hora.

Mas agora não. Agora eu quero beber água de côco em Itapoã, quero tomar cachaça de rolha, quero acender velas quero ver o mundo mágico e faceiro disso aqui, quero olhar as mulatas de sandália de prata, jogar flores no mar no último dia do ano. Quero ainda cantar Janaína e pedir a Iemanjá, queria ter conhecido Mãe Menininha, queria ter ido ver as Escolas de Samba antes do Sambódromo, queria ser flamenguista.

Pouco me importa se amanhã vou blasfemar contra tudo. Só posso falar de uma coisa de cada vez, das coisas que estou sentindo na hora. E agora estou sentindo amor pelo Brasil. Agora eu estou entendendo porque as pessoas podem ir embora, podem morar fora, mas preferem morar aqui e porque tanta gente deixa seus países e vem pra cá definitivamente.

Quero jangada, capoeira, carne de sol, atabaque, pandeiro, fita do Senhor do Bonfim, quero acarajé, cachaça, moça bonita, quero Gabriela cravo&canela, as praias do nordeste, pássaros do pantanal e gente que ri e samba sempre, em qualquer lugar. Hoje quero os bonecos gigantes do Recife, o barro de Vitalino, as redes dos pescadores. Amanhã será outro dia, ok?

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Verger

Não sei se já contei, mas eu adoro Gilberto Freyre. Não conheço melhor um autor que me fale daquela sociologia básica, que explique melhor a relação de brancos e negros, da miscigenação de uma forma tão clara e poética. Quando a TVE era normal, mais cultural eu cheguei a fazer um projeto para um documentário bacana sobre ele, mas acabou que não deu tempo, tudo mudou e os tempos bicudos chegaram.

De qualquer forma os livros de Gilberto estão na minha estante e vira e mexe estou lendo um trecho disso ou daquilo, tirando uma dúvida ou só me deliciando. Li Casa Grande&Senzala e Sobrados e Mucambos assim, de enfiada, com grande prazer e releio sempre trechos, sempre entusiasmado pela maneira vigorosa e poética. Gilberto me faz entender o que eu sou, me faz gostar e compreender esse Brasil mulato, os negros dessa [e nessa] terra, essa cultura diferente e essa gente bonita.

E de uns tempos pra cá descobri Pierre Verger, outro desses camaradas que entram de cabeça nas coisas, que fuçam e se apaixonam e descrevem como Mestres. Pierre se interessou mais pela Bahia e pelo Candomblé. E saiu da Europa e veio morar na Bahia (indo sempre e morando também na África). Fotografou tudo e escreveu tudo o que podia sobre o povo baiano, sobre o Candomblé, essa magia nossa.

O que me entusiasma nesses camaradas é a persistência, é em como vão à fundo nas coisas, como a curiosidade e o prazer viram estudo e estudo sério, como tornam-se Doutores naquilo que gostam. Pode uma coisa ser mais bacana do que você virar um Doutor naquilo que você ama? Não há sacrifício, são obras absolutas, incontestáveis, de referência, feitas com prazer (e poesia).
Não conheço ainda Pierre Verger como conheço Gilberto Freyre, mas conheço, começo a conhecer. É mais um que dei a sorte de descobrir enquanto estou por aqui.

Lendo os dois consigo compreender como se formou esse caldo mulato brasileiro, como e porquê somos assim. Com Verger percebo que nossa religião tem que ser mesmo afro-brasileira que nesse sentido antropológico e sociológico não tem porquê ter catolicismo, que o Brasil é a terra da Umbanda e do Candomblé. E cada dia que passa vou vendo que nada sei, que tenho muito, mas muito o que aprender.

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Ídolos de barro

Eu preciso ter ídolos. Sempre tive. Sempre idolatrei um ou outro. Meu ídolo maior foi o Caetano, todo mundo sabe. Mas idolatrei também o Paulo Francis, o Tom, o Vinícius, o João Gilberto.
Paul Auster e Ítalo Calvino também são meus ídolos e tem mais uns outros em escalas diferentes. Para minha surpresa, dia desses vejo na televisão um ídolo mais recente, o Diogo Mainardi dizendo que não suporta o Caetano, que Caetano é caipira.

Puxa vida, Caetano não é caipira. Vá lá que Diogo tenha um quê de erudição e idéias políticas muito mais consistentes do que o Caetano. Nisso eu concordo, mas chamar o outro de caipira é sacabagem. Porque quando alguém fala mal dos meus ídolos eu fico puto, xingo, escrevo besteiras defendendo, etc. E agora? Um ídolo desancando o outro? Logo comigo, logo meus ídolos? O Diogo podia chamar o Gil de caipira e tudo bem, mas o Caetano!

Vou considerar isso briga de cachorro grande, como deuses que se desentendem no Olimpo e não temos nós que ficar daqui tomando partidos. Pode ser que o Caetano se manifeste, mostre os dentes e fico vendo aqui os dois se pegarem. Como são meus ídolos são bons e fortes, não preciso me preocupar. E se houver briga, quem sabe eu não aumento a idolatria por um deles?

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Queixa

Bom, daqui olho pra esse sofazinho vagabundo que dia a dia Dom Artur vai destruindo mais. Já não ligo. Qualquer dia não tem mais sofá e eu sento no chão junto com ele. No sofá está lendo o jornal de amanhã que nem abri. Minto, abri e li uma coluna sobre política. Mais nada. Não tenho mais paciência para ler jornal.

Não ando com vontade de ler nada. Os livros continuam ali empilhadinhos e os jornais voltam ao seu depósito pré-lixo sem serem sequer abertos. Tenho visto as notícias aqui na internet ou nos telejornais. Notícias que também não querem dizer nada, que não me interessam em absoluto. O Lula desceu a rampa do palácio do Planalto algemado? Não? Então ta bom, não aconteceu nada.

Eu e a minha tia sempre tivemos épocas em que a gente não estava com vontade de ler nada. Fico querendo acreditar que eu esteja passando por uma dessas épocas embora a história fosse restrita a livros e não a jornais e revistas como estou agora. Vou esperar para ver. De qualquer forma, me mantenho informado e sei que não está acontecendo nada de realmente muito importante.

Fico pensando ainda (tenho que ficar inventando coisas pra pensar a essa hora!) que ando sem dinheiro, que o dinheiro não dá, que estou nessa pindaíba desgraçada, que eu não merecia estar assim. Tá, já entendi que não nasci para ser um endinheirado, não tenho talento ou não dei sorte, tanto faz, mas podia ter um dinheirinho a mais pra viver com mais conforto.

Mas aí me vem aquele lado Poliana (como odeio quem inventou essa demente dessa Poliana!) perguntando se não estou chorando de barriga cheia, eu, com saúde ainda, empregado e vivendo sozinho com meu gato entre livros e discos, com banda larga no computador, TV à cabo e um carro velhinho na garagem. Estou acima da média de pobreza dos dois terços da humanidade que estão na linha limite da miséria. Olhando assim, sou um endinheirado que não tenho do que me queixar.

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Robótica

Primeiro eu acordo achando que já está na hora e me decepciono ao ver no despertador que é uma e meia da manhã. Depois duas e meia e, finalmente três e meia eu acho que está de bom tamanho. Nem eu nem o despertador temos mais paciência para esses olhares cheios de expectativas. O que não dá, não dá, não adianta insistir. Levanto às três e meia quando deveria acordar as 6,00 h. Paciência.

Estava sonhando com o Marcelo Tas esse cara que faz uns programas na TV Cultura ou sei lá, que fala sobre coisas do futuro e resolvi arriscar chamá-lo para falar sobre a robótica, onde e como chegaremos com a robótica. Sei que não é muito a praia dele, ou melhor, NADA a praia dele, mas tem essas pessoas assim que são malucas como eu e saem opinando sobre tudo qualquer coisa, desde robótica até OB. Acordei antes de saber se ele topou fazer o meu programa ou não.

Acordo muito antes do que o meu gato, Dom Artur, que ultimamente tem se irritado com esse meu despertar que acaba acordando ele. Ainda é noite, não está nem perto de amanhecer, é hora de dormir, ele deve pensar. Pra não dizer que não é companheiro, ele levanta comigo,dá uma voltinhas e retorna para a nossa cama e volta a dormir normalmente. Ele é gato, mas não é maluco.

Fico aqui olhando pra esse monitor infame, pensando no que estou fazendo, no porquê estou sem sono e curioso mesmo se o Marcelo Tas vai falar sobre robótica. Não foi u sonho apenas, eu realmente mandei fazerem contato com ele. Quem é apropriado é o George Lucas, mas deixa eu calar a minha boca ou me internam de vez.

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27.9.05

Espírito e Inércia

O superego é ilógico no materialismo. A falta de fé nos dá a certeza absoluta da punição independente dos crimes cometidos. Se não estabeleço uma relação com um plano superior, estou julgado e punido de antemão com a certeza da morte. Vivo apenas esperando o dia da execução, nada mais. Estou condenado. Não há uma instância superior para que eu possa apelar. Sou um homem morto que ainda não foi executado.

Para não tornar o planeta terra um anarquia absoluta, posso ser ainda mais punido ao matar e roubar. Nesse caso passo um tempo na cadeia, apanho um pouco mais. Talvez seja condenado a dois ou vinte anos de prisão. Mas eles passam de qualquer maneira enquanto a condenação maior, a condenação decretada quando nasci, a da minha morte não, ela está lá: aguardando o dia. Os freios éticos (superego) não me deixam matar, por exemplo, mas estou apenas me privando de fazer o que quero (roubar um banco ou matar um desafeto). Estou sendo ludibriado por homens com leis menores, que não fazem diferença para um condenado de per si. Tudo ilusionismo barato.

A vida é a maior mentira que podemos vivenciar. Não estamos indo para lugar nenhum. Não fazemos coisa nenhuma porque fazer uma coisa demanda ver a coisa pronta [e vivenciá-la]. Ter um filho ou construir uma casa demandam que você veja seus filhos, netos e bisnetos e também a casa construída, melhorando-a sempre. Mas não é assim. Eu tenho um filho, construo uma casa e morro. Não viverei na casa nem irei compartilhar da existência com o meu filho. Ou melhor, os dois, mas com data [breve] de validade.

Mas se uma pedra praticamente não tem data de validade, então muito melhor ser pedra. Pedra não é condenada. Pedra não deu o azar de ser fecundada. A fecundação do ateu não é uma benção e sim o maior azar cósmico porque obriga a vir ao mundo, trabalhar, procriar e morrer. Se a morte está ali na frente, posso me considerar morto já agora porque não há nenhuma possibilidade contrária. Repito: eu sou um morto que ainda não parou de respirar.

Somos todos mortos que respiram e se todos são mortos não existe vida. Existe um local de espera. Uma ante-sala. Uns morrem aos dois e outros aos cem anos, mas como mortos que são, isso é indiferente. Um chocolate não tem vida como chocolate, ele é um alimento. Pode durar um tempo como chocolate enquanto não é consumido, mas sabemos que uma hora será. Então não existem chocolates e sim alimentos. Se não existissem chocolates haveriam outros alimentos. Importa alimentar-se (morrer) e não de quê (o homem).
Se ele foi despejado em algum lugar, por inércia (lembram do que aprendemos por inércia?), ele não pára. Servirá de alimento, será excretado, voltará à terra, se transmutará em outra coisa, semente árvore etc. que será podada, depois cortada, depois vai virar armário que um dia voltará à terra.... Enfim, um processo onde, posto em movimento, não se pára mais.

A coisa é mais longa para ser melhor explicada, tarefa que deixo a cada um. Pense sozinho nessa história. Não quero me meter muito. Penso eu também aqui comigo mesmo. Penso que a outra possibilidade [embora não pareça] a de estar fazendo uma longa caminhada, um processo de aprendizado, de criação, como quem constrói gradativamente uma ponte que o levará a outra margem do rio.

Um caminho que permita meu espírito continuar, ainda que em outras dimensões, um processo chamado pelos humanos de inércia (iniciado, não pára nunca). Se fui iniciado, por inércia, não posso parar. Esse meu corpo pode morrer, mas não termina a inércia da minha existência absoluta e continuo em frente. Em outros planos, esferas, dimensões, continuo eternamente.

Então não pode haver ateísmo ou niilismo ou o que for numa cabeça pensante porque ela na verdade é provisoriamente pensante e não sabe se esse pensamento de agora é o verdadeiro pensamento porque passará por vários ciclos. Em cada um pode haver algo semelhante ao que aqui chamamos pensamento. Se assim é, estamos apenas passando por um processo (possivelmente vindo de outro) num movimento interminável como nos mostra o cosmos.

Acho que existia algo antes do Big Bang (está comprovado não é?). Mas se o Big Bang deu origem a inércia (da vida), então nada mais pára de girar, andar, nascer e morrer, estrelas que nascem e outras que morrem transformando-se em outras coisas que geram outras num ir infinito, como um rio extra terrestre que deságua num mar infindo e que, em suas correntes, percorre para todo o sempre lugares e lugares.
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26.9.05

Saída

Sair daquela casa é sempre uma esperança que se renova. O homem me observa do alto da sua mesa e diz que estou melhor, que devo voltar para as ruas, que devo trabalhar, fazer as coisas que todo mundo faz. Tudo o que esse homem diz tem um tom paternal, um tom de certeza, uma centelha de verdade absoluta. Ele diz quando devo vir e quando devo ir. Sabe muito mais de mim do que eu mesmo.

Pego os papéis, escuto suas explicações e saio e olho o casarão triste, escuro e penso no que aconteceu ali e nas pessoas que continuam lá. Sei que voltarei. Sempre voltei, aprendi que é um lugar a que se volta. Não há conversas altas agora, apenas murmúrios. Falam muito baixo para não me atrapalhar e a luz do céu é uniforme, púmblea para que eu não caia ali mesmo e, aos prantos, peça para entrar. Não, tudo conspira para que eu entre no ônibus e saia daquele local.

Vou sentado à janela, distraído. Vejo a paisagem passar, cidade pequena, capim, algumas charretes ainda e meninos de calças curtas e rotas que brincam ou fazem não sei o quê. Olho em minha sacola e vejo no meio das coisas meu exemplar em brochura do Paraíso Perdido. Não o abri em nenhum dos dias de minha estada, não consigo ler. Leio sim, enxergo, mas esqueço tudo à cada folha, não saindo nunca da primeira ou segunda. Melhor nem tentar então.

O homem que sempre me recebe e sempre me diz para partir avisa que dessa vez eu vou conseguir ler, diz que devia procurar um outro livro qualquer, que esse é muito pesado, que esse cansa a cabeça, que não é para mim. Mas todos os livros não são para todos. Talvez seja pesado, mas eu gosto dos versos de Milton, gosto dos épicos e sei que a Inglaterra ansiava por seu épico.

Fechar a sacola e não pensar nisso agora. Me ater à paisagem, às casinholas coloridas, as mulheres que varrem calçadas em frente às suas casas, os velhos que caminham amparados em bengalas, as meninas que passam uniformizadas e sorridentes. Ainda estão por ali, ainda ouço a discussão (agora em voz muito baixa) como se não quisessem que eu ouvisse, mas escuto, sussurram numa conversa acalorada e parecem não chegar a um ponto em comum.

No fundo (tudo se clareia de repente para mim), sim, no fundo não durmo por causa da discussão, porque estou sempre ouvindo, porque a conversa não termina quase nunca e quando não há conversa são as lâmpadas que clareiam demais, até quase arrebentarem e piscam e fazem mágicas e, com tudo isso, fico atento ao que virá e não durmo. Não posso e não quero dormir.

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Dormir

Ele se levantou exatamente sete vezes durante aquela noite mal dormida. Ora para tomar remédio para dor de cabeça, ora para sentar um pouquinho no sofá da sala, ora respirar melhor. Sete vezes. Mais de uma vez à cada hora em que esteve deitado para dormir. Como sempre, terminou por levantar-se junto com o clarear do dia.

A insônia é um pesadelo, penso, fazendo café. Tudo é muito pior, olha-se o mundo de outra maneira após uma noite mal dormida, a visão é esquiva e equivocada como num espelho cômico de parque de diversões. Sempre que vêem insônias a impressão é estar vendo imagens distorcidas no dia seguinte, imagens que refletem, mas de forma infiel e perigosa o que pode ser o que chamamos de eu.

Que eu? Quem sou realmente depois de tudo o que aconteceu ontem? Pergunta-se. Não lembra para onde foi levado (bem pode imaginar), mas não lembra. Está agora desperto, aguardando a hora em que será servido o leite com pão e manteiga. Aguarda que o mundo se levante (porque o mundo dorme) e que se preparem todos os pães. Aguarda os homens sem expressão.

Não é nada disso o que importa. Não interessa onde estamos, em que situação, nada. Importa o sono que não continua, que entrecortado, nos coloca para fora da cama sempre, que faz ir e voltar, levantar e deitar mais um pouco na esperança de encontrar um pouco mais de sono. Não, não há sono, não há dormir, não há repouso, de nada adiantam orações, remédios nem passes.

Tem a nítida impressão que o dormir entrecortado, o sono partido é um portal para a loucura. A expectativa do dormir, a frustração pelo sono que não se mantém, que empurra para lá e para cá.... que joga de um lado para o outro como marinheiro em noite de tempestade... Melhor então é não ir dormir, é ficar assumidamente acordado lendo um livro ou escrevendo essas bobagens daqui.

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25.9.05

Sonhos

Ele segue o caminho do longo corredor velho, mas limpo. Traja o pijama de listras em marrom e calça sandálias numa espécie de emborrachado, da pior qualidade. Tenta lembrar em qual cômodo deve entrar. Pára por um momento no largo corredor. Um homem com seu bigode triste e barba por fazer, de roupa branca (e encardida) passa por ele sem dar atenção. Ele está parado. Ainda parado. Já passou pela pequena enfermaria e não o chamaram, portanto estava em dia. Mas devia estar indo para algum lugar. Não era como muitos que andavam sempre pelos corredores sem destino.

Aliás, estava tudo trocado, até mesmo no que pensava e dizia de si mesmo. Claro que ele era 'sem destino', certamente o mais sem destino de todos aqueles homens que partilhavam esse lugar escuro. Sua vida era tétrica e para repousar viera parar aqui [novamente!], mais terrível do que os mais terríveis pesadelos que sentia. Quando deixara cair tudo, quando tudo se quebrara no chão à vista de todos não era por preguiça, era mais um pesadelo. Não devem ter entendido direito.

Descansar.... Mentira! Não havia nenhum tipo de descanso ali. Nunca houvera, desde o primeiro dia. Dormia, é verdade, mas dormia mal e não descansava e, em sonhos, continuava vivendo a angústia lá de fora, a necessidade de fazer algo que aplacasse aquela dor infinda. O pesadelo era a forma de nada mudar, era o modo de lembrá-lo de que era ele que estava ali, que nada mudara e jamais seria diferente, estivesse onde estivesse.

Entrou num salão onde viam uma televisão em preto e branco. Passava um programa cômico, desses que algumas pessoas acham graça. A maioria dos oito homens que assistiam não mexiam os lábios, olhando apenas para a tela como quem olha um horizonte chuvoso. Aproximou-se e ninguém deu por sua presença. Era comum não perceberem quando se aproximava, como se não tivesse corpo.

Voltou ao corredor e caminhou mais um pouco. Num outro quarto mais ou menos espaçoso homens pintavam desenhos infantis em folhas espalhadas pelo chão. Um dos homens passava o pincel na boca antes de levá-lo ao papel deixando consequentemente a boca suja de vermelho, assim como se tivesse levado um soco. Nenhum deles levantou o olhar à sua chegada. Teve vontade de ficar ali, de pintar também, mas deu meia volta. Deveria ir a um lugar e não lembrava.

Limpou a boca na manga do pijama. Sempre fazia isso. Sempre que sentia que sua boca vazava, que tinha mais saliva do que era capaz de conter. Isso era comum não só a ele, mas a todos. As bocas não continham a saliva... parece que ali dentro se produzia muito mais saliva, copos, baldes enormes de saliva que escorriam despudoradamente, sem vergonha, sem dignidade. Não havia dignidade. Por que imaginavam que poderia descansar num lugar em que perdera toda a dignidade?

Aliás, se perguntava, o que é a dignidade de um homem? Onde ela está? Não conhecia esse prazer orgulhoso de ser digno nos trabalhos que tentava realizar. A mulher partira por achá-lo indigno, o patrão olhava de soslaio com desprezo e agora, mais uma vez ali, depósito de um descanso mentiroso e igualmente indigno. Não era ele então. Era o mundo que não tinha nenhuma dignidade.

Deu-se conta que o pesadelo ia voltar justo quando chegava na quina do corredor. Havia ali uma tosca cadeira e sentou-se nela correndo, antes que alguém a visse, antes que acontecesse o pior. As luzes apareceram e disseram-lhe ao ouvido que passasse a mão na fronte. Passou e sentiu que ainda estava com restos daquela coisa gosmenta, aquela geléia sem cor. Disseram-lhe ainda que era a hora de ir deitar, que estavam ali apenas porque o tinham visto tão desorientado. As luzes se tornavam mais fortes. Olhou a lâmpada no teto e teve a impressão de que ela explodiria se ficasse mais forte. Todas as lâmpadas estavam mais fortes, algumas piscavam e falava-se muito, muita gente sussurrava e outros tantos diziam as coisas em voz alta, alterada, sem respeitar nada nem ninguém. Colocou novamente a mão na fronte melada.

Meu Deus! As lâmpadas agora piscavam, apagavam-se por completo voltando umas fracas e outras fortes. Esferas de luz e discussões; conversas de muitos, de pequenos grupos. Todos resolveram falar ao mesmo tempo, todos tinham uma opinião sobre alguma coisa. Num canto pareceu-lhe ver alguém pendurado, como que enforcado. Afastou o olhar e quando olhou novamente não viu nada. Abaixou a cabeça, segurou a cabeça, sentia o suor pelas costas e o tremor e passou um longo tempo assim até que o homem de bigode triste e roupa branca encardida se aproximou, dessa vez com um outro, maior, mais forte. Ia novamente

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24.9.05

Festas dos Mundos

Porque temos um longo caminho a seguir, longo independente do número de anos que vivemos. Fico me perguntando [como será] se e história da reencarnação for verdadeira. Bom, partindo do ponto de vista de um não encarnado, me livro da folhinha, dos anos e horas. Nesse aspecto torço pra que sim, pra que a vida continue após a morte e para esse vai e vem (que continua me parecendo ilógico).

Tava conversando com o psicólogo e carnavalesco Milton Cunha. Ele me falava do sincretismo e de todas as correntes e santos e guardiões e encruzilhadas e da linha hierárquica astral. Me chamou atenção um aparte em que ele fez falando da 'loucura' de Exu ter salvado Oxalá em determinado momento e de Oxalá mandar Exu à Terra para, nas encruzilhadas, mostrar os caminhos. Falo disso porque antes eu não conseguia falar de tanto medo. Agora que sinto menos, trato de falar embora fique tentando entender, coisas que não entendo porque nunca estudei, sempre quis bem longe de mim.

Mas não posso negar que o mundo é muito mais atraente cheio de divindades que fazem e desfazem, que a gente corre a reverenciar com velas e flores num mundo que explode em cores e cantos e rituais que alegram nossa vida. Falei já das margens do Rio. Uma de festas, bebidas e velas, santos e músicas e atabaques e outra margem cinza de pálidos homens cabisbaixos. Quero estar na margem das festas. Quero desencarnar e voltar de novo. Quero essa minha sala cheia de espíritos que me rodeiam e inspiram ou brincam e não me deixando escrever.

Se não for nada disso, serei um homem solitário que escreve para ninguém ler e quando ler não gostar porque não são assuntos para blogs. Vou em frente. Não sinto nenhuma presença por aqui, mas isso não quer dizer nada, não preciso das presenças perceptíveis, preciso da perspectiva, da crença nesse mundo alegre e folclórico que falamos e não vemos, que reverenciamos com colares, velas, tochas, contas e cores. Como o carnaval, em suma, seria uma grande festa pagã que homenageia esses planos, essas esferas. Nunca consigo não ouvir a voz de Vinícius falando no Senhor das Esferas.

Mas posso não dizer nada também, o que é melhor. Posso ficar por aqui fazendo das minhas, procurando entender, olhando para o céu e buscando a resposta que vem porque é azul, porque tem estrelas, porque é o azul que eu gosto (como o branco). Não é pra entender muito mesmo não. É pra ver o que vai acontecendo com coisas e pessoas, deste mundo e desses outros mundos que estão ao nosso redor, desses mundos de festas que não participamos porque não queremos ver. Vou em busca de meu Pai e minha Mãe nesses outros planos, nessas outras vidas misteriosas porque, afinal, tudo é mistério. Só vejo mistério. Mistério é estarmos por aqui...

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Um recorte avulso

Acordo com a cabeça meio fora do lugar. Não é de se estranhar após uma noite de muitos copos de vodka. Não sou um bebedor contumaz. Realmente não. Sou muito pior. Sou dessas pessoas que fazem de tudo uma fuga da vida. Não me importa como estou me drogando, como estou escapulindo desse cotidiano besta. Jogar o tarô é uma forma de se drogar penso eu com O Enforcado sendo tirado. Coloco a carta junto ao Mago e o Juízo Final. Tudo bem, sei pra onde estou indo.

Aliás isso é interessante. Não me incomodo de saber para onde estou indo, era mesmo para estar, fiz tudo por isso. Mas quando revejo os festivais de música de 66,67,68 na TV Cultura (esta sim uma verdadeira TV Pública), quando vejo Caetano novinho e depois uma entrevista dele agora com cabelos grisalhos como os meus... Enfim, realmente tudo teve um motivo de ser.

Não tenho ido aos lugares, mas tomo consciência da minha solidão, do quanto estou só no mundo. Diria que estamos todos sós no mundo, mas não me interessa aterrorizar todo mundo. Cada um deve olhar no seu entorno, deve ver suas famílias, seus conhecidos e amigos e tirar suas próprias conclusões.

Se estou assim, só no meio do mundo, se essa Terra me é tão estranha quanto qualquer planeta desabitado, me resta escutar seguidamente, vezes sem fim o CD Diana Krall (Live in Paris). Explicar o porquê é complicado, tenho preguiça, acho melhor assistirem Casa Blanca muitas vezes, uma vez atrás da outra.

A Casa de Secretário foi minha última investida no mundo (Como Vontade de Representação). Não deixei isso claro ontem porque simplesmente não é claro (só para mim mesmo). E as coisas que são minhas, habitam em mim e não saem, não são explicáveis. Não me explico nem a mim mesmo. Agora não mais. Agora a finalização desse blog, o trabalho de ilusionista que entretém o povo nos programas de televisão. Agora insistir mais um pouco no 'Dionísio Crucificado' de Per Johns que leio, mas não compreendo porque minha cultura não chega lá. Mas vejo no jornal que saiu por aqui (finalmente) 'O Complô contra a América' do meu autor predileto, Philip Roth.

É de uma simplicidade irritante essa minha vida. Injustiça. Têm mais uns 6 ou 7 bilhões de pessoas com suas vidinhas insignificantes. Com certeza menos atormentados porque não sentem, não percebem que tudo está indo, que existe um demônio em cada encruzilhada nos indicando ao caminho que leva ao fim derradeiro. Pelo menos, com sua morte, Saul Bellow nasceu para mim, não passei a vida sem conhecê-lo.

Por outro lado, desisti de melhorar o programa Comentário Geral que dirijo na TVE. Tive um certo entusiasmo que durou exatos doze programas. Não mais. A televisão pública no Rio de Janeiro está em descompasso comigo (ou vice e versa). Assim, como bom humanóide, cumpro minhas obrigações, mas vou além apenas para mim mesmo. Em vez de melhorar roteiros, me divido entre Spinoza e Per Johns... ou Philip Roth e Paul Auster...ou entre caixas de psicotrópicos e garrafas de vodka.... ou entre minhas anotações manuscritas (caneta de pena com tinta lilás) e esses fragmentos aqui na internet. Tudo, no final, para o tempo passar.

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23.9.05

Por que será que a vida às vezes anda tão pra trás? A gente só pode pensar no passado? não tem como explicar?
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Pessoa

"Conformar-se é submeter e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento como o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue.Só é forte quem desanima sempre. O melhor e o mais púrpura é abdicar. O império supremo é o do Imperador que abdica de toda a vida normal, dos outros homens, em quem o cuidado da supremacia não pesa como um fardo de jóias."
Fernando Pessoa [1913?]
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Guia

A guia de Oxalá vai em meu pescoço enquanto trabalho ou faço compras cotidianas. Está ali por estar, porque acho bonitas as contas brancas, porque foram cruzadas por uma entidade feminina. A religiosidade que possuo é atéia o que sempre me deixa muito confuso. Não quero ofender os deuses nem muito menos blasfemar. Porque sou ateu por natureza e não por convicção. Tudo deve mesmo ser apenas o que é. Materialista apenas [não deve existir o antes e muito menos o depois]. Quero que existam espíritos e deuses que povoem esse e outros mundos, quero fazer pedidos, orar e aguardar ser atendido. Caminho pelas ruas ostentando minha guia de contas brancas como quem anuncia ao mundo ser filho de Oxalá. Gosto das guias de contas azuis também [e as tenho]. E continuo pelas ruas, passando pelas gentes que pensam uma coisa de mim não sabendo que [não minto] sou contraditório, que busco a fé no simbolismo e não o inverso como de resto deveria ser.
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E o rapaz que diariamente, ano após ano, entrega os jornais nas residências, nunca lhes olha sequer as manchetes.
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Dizem que as moças que ainda valem à pena já tem namorado...
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Rapariga

A mulher sobre a ladeira com a pequena tina à cabeça. Vai firme [é robusta ainda], levando água para o preparo do almoço. O homem que ela tem poderá não estar em casa, mas na hora do almoço os filhos hão de querer comida. Nem é íngreme a ladeira nem infeliz a mulher. Apenas mais uma mulher entre tantas, mais uma imagem do que uma vida, mais uma pintura do que uma existência. Porque vidas vividas existem muitas, mas a resolução, a expressão [que não se vê porque ela está de costas] e a luminosidade harmoniosa me dizem que não estou vendo um acontecimento corriqueiro, estou apreciando uma pintura em pequeno museu em Cintra, Portugal.
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O pequeno carro vermelho corre nas estradas cheias de neve em direção a Paris. A mulher de cabelo vermelho, fuma, dirige e fala, fala muito, conta tudo o que lhe passa pela cabeça. A seu lado está o homem que perdeu a memória, que não sabe o que está fazendo ali, não sabe quem é aquela mulher, sabe apenas que sua cabeça dói, que seu corpo não lhe pertence. Leva um saco vermelho, saco que nunca viu, mas que, provavelmente são todos os seus pertences agora. Mesmo os passaportes e o dinheiro em quantidade ali guardados. A mulher, por fim, pára de falar e o carro velho e pequeno [mas vermelho] continua em direção a Paris.
[trecho de um filme bacana que vi dia desses na TV]
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Pessoa

O estilete está aqui, na escrivaninha. Já esteve na borda da banheira e também já na mesinha de cabeceira. Guardo o estilete num lugar em cada dia, mas ele está sempre ali, ao alcance dos meus olhos, sempre me chamando a atenção. Esse estilete é daquelas comuns, de escritório, mas na minha casa ele tem vida própria e se anuncia diariamente a mim, se apresenta no simbolismo do nada, da carne cortada ou drama cantado naquele disco que gira em 78 rotações.
Os passarinhos começam a cantar e sei que é hora de me barbear e vestir, hora largar o Fernando Pessoa na mesinha para continuar sua leitura de noite. Quantas vezes já li esse livro? Quatro? Sete? Não importa, vou ler sempre porque muitas vezes tenho a impressão, não, a certeza de que o mundo foi criado por Fernando Pessoa.

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Faço um sinal para a mulher que está no balcão tomando o café de xícaras fervidas [que não se encontram mais]. A mulher traga o cigarro e deixa a fumaça pairar azul em seu rosto de desdém. Nem sei porque acenei, não tinha mesmo nada a dizer e não falo com estranhos [muito menos mulheres]. Me viro na cama e sei que estou sonhando, mas não consigo despertar e continuo sonhando acordado com a lanchonete quase vazia, com os poucos soturnos que tomam seus primeiros cafés e pensam no dia que vem pela frente, nas pedras a serem quebradas, nas roupas a serem vendidas, nos papéis a serem conferidos e rubricados, nos navios pequenos que serão carregados. Todos sabem o que vão fazer dali a pouco, todos não têm [ou perderam a] expectativa, todos parecem olhar a chuvinha fina lá fora e perguntar o porquê desse [mais] um dia.
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Levanto e é madrugada. Ainda falta muito para o sol nascer, mas o sono se esvaiu, terminou por completo, como se tivesse vazado e escorrido para labirintos imemoriais que não me atrevo a percorrer para buscá-lo. Deixo-me acordado com esse café forte e quente, com esse cancerígeno e maravilhoso cigarro e com o miado amigo de Dom Artur.
Procuro nos desenhos que fiz a nanquim ontem à noite aquele da mulher nua deitada, aquele que era um esboço, aquele em que a mulher não tinha rosto, seu corpo era de traços retos, que me saiu num repente, quase todo num só traço. Não, não sei mais onde está, não sei nem mesmo se realmente o fiz ou foi um desses sonhos que não querem dizer nada, que sonhamos nas noites fazias de camas solitárias, sonos entrecortados e vidas apagadas.

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Meu caro Neves

Te escrevo hoje já com atraso de uns quinze dias senão mais, não é verdade? Pois perdoa teu amigo que se perde no tempo com essas folhas avulsas a por em dia nesse quarto desarrumado, dessas caixa de sapato tão cheia de sonetos que a amada não verá dia nenhum.
O resto do tempo estou naquele escritório sombrio, a carimbar papéis e processos, montes deles que se depositam na minha escrivaninha como um Sísivo. Quanto mais carimbo e rubrico, mais papéis e processos aparecem.
Não sabia que seria assim o tempo todo, não sabia que meu chefe seria aquele homem pálido de surrado terno preto com suas olheiras verdes e seu negro bigode triste.
Não, meu amigo, não era nada disso o que eu esperava. Quando vim para cá pensei que tudo seria diferente, meu sonho falava de um mundo claro e alegre, com muita música e moças e rosas e nuvens.
O florista não me conhece porque não tenho a quem mandar flores, o homem da tabacaria me entrega diariamente os maços de cigarro com o ar entediado dos que já fumaram por toda uma vida e o rapazola do jornal entrega-me o exemplar dobrado e vai rápido em frente porque precisa vender, precisa correr.
A calçada é estreita de piso maltratado, com as pedras todas fora do lugar e o casario é vulgar, feio com as mulheres de saia grossa e longa sempre a varrer soleiras e pedaços de calçada como se o mundo fosse apenas isso.
Me alongo para saberes o que vai por aqui, que nada mudou desde a última que te escrevi, que o tempo não anda e a vida não passa e eu nem sei se vivo durante anos ou todos os dias são um só dia.
Do teu
K

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Quando corri menino pelo jardim da casa
Quando trepei em árvores o colhi os frutos
Quando olhei pra baixo e vi o futuro
E corri mais e mais pela relva cercada de cerca branca
Quando vi a casa grande com a chaminé alta soltando fumaça
E ri com a mulher mais velhas que fazia o pão de cada dia
Ou ainda quando olhei pelo vidro opaco vi
O irmão mais velho que beijava a menina mais vela no canto da casa
Enfim, quando a vida se apresentou
Era a promessa de uma vida feliz, alegre
Uma vida de pé no chão sim senhor
Pra sentir a umidade gostosa do orvalho na grama
Pro céu virar uma seda azul e minha estrela brilhar

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Ontem foi a pequena mesa de tampo de mármore no bar
Hoje é consolo do uísque que passou
Penso em tudo o que senti e sonhei
Mas se ontem foi a estrela guia
Que ontem me fugia das mãos
E corria, sorridente no céu
Hoje é o desgosto de ontem e a expectativa do amanhã
Da estrela que deve nascer todos os dias
Da luz que banha o universo
Do sol que alegra meu pequeno foguete que me leva ao trabalho

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17.9.05

Diabolo penso de mim. Quem é Diabolo, nome estranho para feia criatura que anda de chapéu de vaqueiro, mas tem o sangue escorrendo dos olhos como figura de maldição. Noite invernais, ventos e chuvas que não são dessa minha terra, tudo conspira para que eu entre na cerca e siga as pegadas de Diabolo, homem fera, que não é homem, que não está vivo porque olhos não sangram porque esse nome não existe, porque nos drogamos para suportar.

Vou em frente apesar do corcel negro, apesar da chuva grossa, apesar do grito do coiote. Nada detém minha caminhada em direção a essa figura que preciso encontrar, que nunca ouvi falar, mas agora quero ver, Diabolo. Quando chegar a ele estarei consumido por toda a angústia da espera, todo o peso do mundo, toda a tristeza de amor. Tudo é passado. Chapinho na lama negra e vou ao encalço de Diabolo.

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Um alento aos que vem acompanhando

Antes, é preciso boa vontade e compreensão. Não adianta concordar ou discordar de mim porque sou um e não sou o óbvio do mundo. Sou o meu próprio óbvio. Não pensem as pessoas que têm suas vidas certinhas, que fazem uso do despertador, do médico, do modess, não pensem essas pessoas que estão confusas, que alguma coisa pode estar errada. Não há nada de errado. Nunca há nada de errado no mundo. O mundo se auto-equilibra e assim continuará. O homem nascerá, procriará e morrerá. Não podemos escapar dessa [doce e vibrante] realidade.

O grande mal, maior do que as doenças da mente é a filosofia que alguns buscam para pensar esse mundo. Entendo por um lado que o mundo (a vida) não é para ser pensado, é para ser vivido. Todos acordam, fazem sua higiene, cuidam da família e vão trabalhar durante trinta, quarenta anos com alegrias aqui e tristezas ali como é comum da própria existência.

Essa é a vida real, que deve ser vivida, que deve ser curtida porque é desse processo que nascem as possibilidades de estudarmos, casarmos. Ter filhos e com ele ir a Igreja se isso for prazer, se fizer parte do contexto. Andar de pedalinho na Lagoa, passear de bicicleta, ler e fazer poesia, cuidar dos doentes e desvalidos, pensar no futuro e preparar-se para ele. Não importa não sabermos o que será o futuro, importa sabermos que o futuro está logo ali na frente.

Cuidar do corpo e da mente, dançar, conversar com animação porque a vida é animada, cuidar da saúde e do espírito, ensinar aos pequenos, perceber as pétalas das flores e olhar o céu avermelhado porque coisa mais linda não há. Brincar com o imponderável e rir, rir muito porque o riso é expressão da vida que pode andar em círculos, mas não a desmerece. Hoje não temos dinheiro e estamos enfermos, mas amanhã tudo muda e novamente riremos.

Não há porque tomar remédios que alterem o pensamento nem o ânimo porque a vida é prova e exemplo de ânimo, porque a Terra é azul, porque as crianças [adultos?] brincam e estamos aqui, fazemos parte disso tudo, desse milagre [repito] chamado vida. Se existem os diferentes, deixemos por lá porque diferentes são eles, incapazes de participar [ver e reconhecer] da festa eterna do maravilhoso enigma Vida.

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O Leitor Egoísta

Parto da observação de uns poucos mails que recebo falando do assunto bem como da discussão com duas pessoas que procuram aqui as respostas para mim. E frustram-se todos os leitores e eu mesmo porque não consigo (nem conseguirei) explicar-me aqui. O que faço é deixar por uns dias os cadernos e trazer para esse universo aberto, impressões pessoais de um mundo sem solução. A solução desse mundo que falo é o suicídio. É preciso que haja o suicídio para a redenção, para a paz, para exemplificar de forma cabal o que as palavras não podem dizer. Não adianta reler Os Diários de Virgínia Woolf porque ela [tentou e] não conseguiu exprimir a dor da existência. Só podemos imaginar alguma coisa perto do que ela gritava em vão ao assistir a cena do filme As Horas, em que Virgínia placidamente entra com os bolsos cheios de pedras num rio, sua última ida, seu último escrito. A ação da morte no rio é mais convincente do que todos os livros e diários.

Portanto num espaço aberto como num blog (guardadas as proporções de épocas e formas de se publicarem idéias) não se consegue mexer com o Modo Estabelecido de quem lê. As pessoas lêem, perguntam, conversam, falam de poções mágicas e medicações modernas quase entrando em desespero por perceberem o caminho que trilho, o tranqüilo, longo processo que venho atravessando para dizer o óbvio. Não, não estou dizendo que vou me suicidar amanhã. Não é isso. Digo que o suicídio explica o que duas mil páginas de pensamentos, anotações e tentativas de explicação falharam. Não caberá [adiantará mais] ao homem dizer tudo, buscar exemplos, mitos, todos os símbolos que desejar. Somente o seu próprio exemplo de ação descreve o que era para ser percebido na arte (da escrita, por exemplo).

Esses temas podem ser tratados aqui porque esse espaço muito pouco é procurado. São assuntos que não interessam a ninguém. A internet, além da pesquisa, serve ao entretenimento e não à repetição de tentativas vãs de explicações sobre a melancolia [da existência] do viver (e pensar). Não. Absolutamente. Enquanto existir uma tarde de sol, uma orla marítima com bares onde pessoas belas ingerem cerveja sob a forma de chope [tem isso também], não há lógica em debruçar-se na explicação filosófica e na angústia que essa existência pode promover. São necessários exemplos e parece que os da Mitologia, os Mitos, tudo não é mais compreendido porque não é conhecido, estudado. Só posso falar da Náusea diante do mundo usando exemplos de roqueiros atuais que se matam de over dose. Essa é a única possibilidade de entendimento.

Compreendo que seja assim. Só falando do roqueiro que se drogou até a morte o outro entende porque esse outro que é parte de uma massa falida que não teve acesso e hoje se recusa a entender os clássicos [na arte] e casos e exemplos [que se concretizam]. Bem verdade que uns poucos liam em livros de filosofia e não em blogs, que tudo era diferente e será sempre diferente. O roqueiro não morre acidentalmente de over dose. Ele desiste do mundo cinza, da lama, da impossibilidade de conviver (apesar do glamour e da fama). Tal como os pensadores e filósofos, o roqueiro é o exemplo vivo (e compreensível) de toda a construção intelectual erguida até hoje [falida, então?].

Ainda assim, esse texto não será completamente entendido porque estarão procurando no escrito o que não está dito. Se escrevo para que se leiam entrelinhas, não conseguem. Se escrevo para que se entenda apenas o que está cruamente escrito, acham que existe algo nas entrelinhas.

Ocorre uma censura (inconsciente) ao que eu digo, não pelo que eu digo propriamente, mas por resultar o que penso (e sinto). Como não desejam ver minhas teorias (óbvias) postas em prática [pelo menos não em mim], porque elas representam abandono, isolamento e morte, enfiam a cabeça na terra e não entendem o escrito ou me dizem que certamente estou errado ou, numa última tentativa, concluem que estou doente, qualquer coisa, qualquer coisa para afastar do corpo, a idéia. Em tudo o que penso, digo e escrevo, não há nada discutível nem incompreensível. Há uma negação de quem lê porque sabe que o escrito é prenúncio da ação, que não posso idealizar sem realizar. E para continuar entretendo (ou fazendo pensar) é preciso que (eu) esteja materialmente aqui incitando, provocando. Custe a mim o que custar. Basta pensar com calma não no que eu disse, mas no que deixaria de representar.

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16.9.05

Náusea, Niilismo, Frevo de Yemanjá

Mas caminho pela outra margem do rio. Um rio de águas turvas e ora revoltas sem dúvida, mas de margens próximas e distantes ao mesmo tempo. Margens Mágicas.
Todo o meu ser é comprometido com essas Margens Mágicas e esse rio perigoso. Demorei muitos anos para pensar e outros tantos para passar de um lado a outro. É porque existem mitos nas duas margens. Figuras míticas que podem alterar todo o nosso processo de vida, toda a nossa percepção de mundo e, de certa forma, nos levar a loucura.

As máscaras que estão lá, estão desse lado também, talvez invertidas, talvez pregando uma peça em quem observa um mundo que fala de tanto cinza, tanta lama e vermes tendo muito próximo um reflexo dessa experiência que é toda mítica, que nos traz uma enorme e linda figura de Yemanjá singrando os mares, com estrelas, cavalos marinhos homens tão reluzentemente negros e belos em roupas que cegam de tanta brancura.

Reverencio essa Senhora e entro no mar com flores, espelhos, perfumes, pequenos barcos e cada onda que me cobre faz renascer o espírito menino que há em mim, que, revigorado, faz ver se aproximar a procissão do Divino com seu belo estandarte vermelho e os bumbos que marcam a passagem, que atraem velhos e crianças porque Nosso Senhor Jesus Cristo está sendo levado em árida procissão na seca que não desespera jamais.

Olho em minha caixa de papelão de boa qualidade, caixa vazia e procuro uma resposta como se procura na borra de café. Não vejo nada. O tarô não impregnou a caixa e dou asas ao pensamento até chegar ao livro baralho que me desvenda o arquétipo do outro, mas não desse contexto prenhe de duplicidade, de reflexo, impressão, pressentimento. Minha caixa é tão vazia como o universo de explicações. Quando explico um lado, nego o outro lado sem, entretanto, negá-lo porque é nesse mundo de frevo (lá vem os passistas e seus guarda-chuvas coloridos!), de riso, velas e atabaques que reside o outro.

A outra margem do rio não tem nada disso; é baseada em Angústia, Náusea e Niilismo, num pensamento claro do lado escuro onde a chuva é ácida e não há Deusa do mar porque de lama é esse mar, porque não acredita em deusa, porque é avesso ao oculto, porque é mais importante pensar na impossibilidade, na falta de lógica, na tolice de um mundo finito, de uma vida que termina logo ali na frente sem que eu possa entender tudo. E esses dois povos, ocupantes de cada uma das Margens do Rio convivem e não se compreendem, se criticam, são opostos quando são reflexos de si mesmos. Fragmentados porque reflexos de pequenos pedaços de um ancestral espelho partido. Mil cacos que formam uma constelação que antes confunde porque não vemos o todo.

Mas quem olha da outra dimensão, quem habita a ilha de elfos e duendes, filosofa por trás de negro veludo, estuda pesados livros de capa de couro marrom e sofre. Outros, com a mesma certeza e convicção, se matam, deixando mais uma dimensão, mais um reflexo (até o improvável infinito?).
Do lado de fora, logo abaixo das janelas cobertas de veludos e teorias, desfilam orixás, aiatolás, escolas de samba, frevos, trios elétricos, alegria, suor e cerveja. Talvez toda a resposta esteja entre as margens, num cósmico rio turvo...

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Ainda sobre a Náusea

Eu ia reler A Náusea pra falar aqui um pouco mais desses esses ensaios sobre a melancolia, mas achei desnecessário. Em primeiro lugar porque A Náusea é um romance curto e maravilhoso, talvez a obra prima de Sartre em literatura. Todos devem ler. Ainda que romance, esse texto demonstra como nenhuma outra tese, a visão existencialista de Sartre. Com o personagem Antoine Roquentin vamos vendo todo o que poderia chamar de Desgosto do Mundo. Quando ele olha a mão que sai de um paletó e pensa num verme branco, numa ameba. Mas repare a mão branca de alguém de terno.... é um verme branco. É desse mundo estranho, sombrio e inócuo que venho falando.

O que acontece é que existem muito mais vermes brancos (amebas) do que lindas flores e belas manhãs ensolaradas. Ou na mesma proporão, é apenas questão de ótica, de como olhamos o que nos circunda. Claro que você pode ver só margaridas, mas é claro também que pode ver só amebas. Claro que pode sentir vontade de sorrir, mas igualmente, claro que pode sentir uma Náusea brutal diante da vida. E o que é o certo? Quem diz o que é o certo? Filósofos? Psiquiatras?

Dirão os apressadinhos de plantão que é mais agradável ver o céu azul e sorrir para borboletas. Sim, pode ser para algumas pessoas ou para a maioria delas, não importa. Mas o contrário, olhar os vermes e vomitar e não ver razão em nada é a outra face da mesma moeda e que, racionalmente, não pode ser negada. Você dirá então que o mundo sucumbiria vendo apenas essas coisas ditas deprimentes. Talvez. Talvez para quem pense assim. Mas é igualmente válido renegar e olhar o negror, o poço sem fundo, a banalidade e a inutilidade atávica de existir.

Existe um pensamento cristão tolinho de que a vida é boa (e bela) porque feita por Deus, que o homem é perfeito porque feito à Sua imagem e semelhança. Tudo bobagem. Ponto de vista, ótica. O satanismo, por exemplo, tem a mesma argumentação do cristianismo ao contrário e o homem (de verdade e não o da Igreja) é feito de contrários, contradições. Dei essa desviada do assunto só pra exemplificar que você pode adorar a Deus ou ao Diabo, vender a alma a quem quiser como pode também não acreditar que sequer alma possui.

O que se pode considerar de bom para o ser humano é exatamente a história dos possíveis, dele poder escolher, experimentar, mudar de idéia. Existe o que vive bem na melancolia e mal na festa e o contrário também. O importante (e difícil) é resolver se vai viver a vida da maneira que melhor lhe aprouver ou se suicidar. Com isso resolvido, todo o resto é dogma, filosofia.
Roquentin anda desesperado pelas ruas, descrevendo-as como as vê e, num determinado momento, diz que deixou a Náusea lá atrás. Mas ela aparecerá novamente logo à frente.

Quero antes saber da fé. O que é, como é, como vem, como a temos tão arraigada em nós que suplanta todos os infortúnios da vida. A fé me coloca de um lado ou outro. Induz a ver a manhã ensolarada ou a lama da chuva da noite anterior. Prosto-me ao chão diante do crucifixo e lancinantes dores são aplacadas. Levanto e saio, cabeça erguida, grato por tudo o que vida me oferece. Pela relva, pelo pão, pelo amor, pelo sol que sempre nasce.
Na casa em frente, janelas fechadas e indevassáveis por cortinas de pesado veludo grená, eu, sim esse mesmo espécime homem sou Fausto que em desespero me vendi a Mefistófeles e agora (por ter querido tanto a vida) perco Margarida! O Diretor de teatro, a Bruxa... todos sabiam que Margarida ia me aparecer? Trama e conspiração, Mefistófeles me leva Margarida! (Quem perde mais? Fausto ou Mefistófeles?) Não teria sido melhor eu, esse Fausto de Deus, ter vivido em Náusea e Angústia?!

Poderia continuar, mas deixo de lado, deixo a cada um, não quero mais me alongar. Penso apenas que vida imita a arte e antes de prejulgar deveríamos buscar nessa arte a inspiração (e decisão) para a vida que vamos viver (escolher). E quem não o fizer, abstenha-se de filosofar e julgar porque o mundo é vasto [vasto, vasto] e mundo bem pode não existir.

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15.9.05

Hoje estava preparado para dar continuidade aos artigos que falam da melancolia como filosofia. Preparei mentalmente e fiz pesquisa em Sartre (A Náusea) que me parece um bom exemplo. Entretanto, o projeto fica adiado porque inventaram os computadores e não pode haver vida inteligente e informática ao mesmo tempo.
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CLASSIFICADO URGENTE

Compro máquina de escrever MECÂNICA em bom estado. Como stand by, procuro doador de coração para transplante.
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13.9.05

Nililismo

substantivo masculino
1 redução ao nada; aniquilamento; não-existência
2 ponto de vista que considera que as crenças e os valores tradicionais são infundados e que não há qualquer sentido ou utilidade na existência
3 total e absoluto espírito destrutivo, em relação ao mundo circundante e ao próprio eu

Bom, o Houaiss ainda se estende bem mais sobre o niilismo, mas essa parte parece bastar para falar uma coisa que eu estava pensando, mas esqueci. Ia falar desse sentimento de nada, de vazio, de vácuo que pode tomar as pessoas, mas também não é bem isso....fica parecendo com a história da Angústia que escrevi há uns dias atrás.

É um sentimento diferente e difícil de explicar porque é muito racional, filosófico e, ao contrário do que aparenta, está distante das doenças psiquiátricas. Não se reverte com medicamentos ou eletro choques.
É simbólico e tenho que falar em símbolos, sonhos absurdos para exprimir o que não tem palavras convencionais. Talvez seja o sentimento de que estejamos mortos, estejamos aqui na Terra com nossos afazeres, mas estejamos mortos e sabemos que tudo o que fazemos é nada e resulta em nada porque no fim estaremos o que já somos, pessoas mortas. Entretanto, do ponto de vista do outro, não estamos mortos, ao contrário, muito vivos. E como o outro não consegue perceber qual o sentimento do primeiro, atribui à angustia e depressão, o que se resolve com psiquiatras e pais de santo.

Não, não se resolve. É muito importante afastar a possibilidade de doença bem como explicar o sentimento baseado num ou outro acontecimento que tenham rolado em função de um contratempo, perda ou alguma coisa que nos tenha abalado, deixado pra baixo, essas coisas. Porque não é nada disso. Não é nada dessas coisas que a gente tem catalogado. Nem mesmo o próprio niilismo pode se definir, ele tenta e talvez chegue o mais perto do que palavras podem exprimir.... vamos usando da mesma forma que filósofos usaram. Filósofos também não se insurgiram contra a falta de capacidade que temos de exprimir sentimentos.

É um texto chato, meio choramingas, desses que a gente vai escrevendo, escrevendo e quando olha viu que não disse nada, que reclamou da vida ou que a doença começa a encontrar outras formas de se expressar, como modalidades diferentes, mais bem elaboradas. Não é isso. Claro que chove. Claro o dia, como a vida, é cinzento. Claro que, tecnicamente, estamos doentes. Portanto, desnecessário continuar.

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?

Pela terceira vez recebo pelo correio uma caixa. No primeiro dia achei que era algum livro que tinha comprado pela internet. Recebi na portaria, vim pra casa tentando lembrar que livro seria e abri. A caixa estava vazia. Semanalmente, sempre nos mesmos dias da semana tenho recebido uma caixa vazia.

Da segunda vez, tinha certeza que não encomendara nada e pensei que podia conter uma cobra, uma aranha daquelas venenosas ou uma bomba. Tive certo medo, mas abri. Nada. Completamente vazia. Com certeza isso não interessa a ninguém, não deveria estar aqui. Escrevo porque consigo pensar melhor lendo sobre o que estou pensando. Caixas vazias... Deve existir um paralelo entre o mundo e suas coisas e as caixas vazias. As caixas vazias são um símbolo e tanto. Porque a caixa, em tese, é para acomodar alguma coisa. A caixa vazia foi além disso, ela ultrapassou a função comezinha e criou vida própria mantendo-se vazia.

O que era exatamente aquela pedra azul no filme do Paul Auster? Lembrei disso porque olho essas três caixas vazias aqui na minha frente e sei que não estão vazias. Sei que estão cheias de informações, que falam de mim, para mim. Na verdade, aparenta estar vazia. Como se preenche uma caixa com niilismo, por exemplo? As caixas me trazem mais um estoque de niilismo para que eu não me desvirtue do caminho?

Numa delas guardarei alguns baralhos de tarô. Talvez assim as caixas, depois, sem as cartas, se impregnem de um certo poder de oráculo não visto antes em caixas vazias. Talvez não aconteça nada. Lembro de uma casa num bosque que visitei de um alemão que morava aqui no Sul do país... era uma casa de madeira e ele era velho. E quando ele morreu (se morreu), a casa ficou tal como a caixa, um espaço vazio.

Não há misticismo na caixa vazia. Ao contrário. Perece me mostrar a falta de fé, o dilema humano diante da morte, a dor da liberdade, a capacidade de absorver a filosofia. Talvez todo o destino esteja numa caixa dessas vazias. Olho com calma, observo os cantos, o fundo.... o que está sendo dito tão claramente, o que está sendo mostrado apenas a mim? Tampo e deixo as caixas guardadas cuidadosamente uma sobre a outra. Não sei se continuarei recebendo outras, mas essas me bastam para refletir, sobre o universo, a existência, sobre a vida, sobre mim. Sobre mim.

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Sexo anal

Ia falar de política porque os jornais dão me dão paz, mas tem uma coisa que me chamou a atenção. Na edição de sábado, 10, O Globo publicou entrevista com a bailarina australiana de 50 anos, Toni Bentley. Ela não fez nada de muito especial, falou de nós, das nossas necessidades, nossos prazeres. Mas parece que o livro foi bombástico, principalmente para as feministas, por dois pontos extremamente prosaicos: ela fala de seu enorme prazer no sexo anal e na arte da submissão.

O que acontece é que as pessoas ainda não falam das coisas [e jamais irão falar]. Fazem [se esbaldam na putaria] e não falam ou nem fazem [e será sempre aquele projetinho de orgasminho chinfrim] porque algo diz em suas cabeças que aquilo não é legal. Mas a verdade não é essa. A verdade é que (embora as pesquisas mostrem o contrário porque as pessoas mentem nas pesquisas) as mulheres adoram, sempre adoraram sexo anal. Aliás, se não for para a procriação, o que importa o lugar da penetração? Vai, pode ser o ânus, a vagina, o sovaco, a boca, a orelha, qualquer lugar porque é um ato que busca o prazer e cada um tem seus prazeres individuais.

A submissão é tão antiga quanto o ser humano na face da terra. Claro que nas relações sexuais há submissão e quanto mais melhor. Pode ser do homem ou da mulher, mas está lá, bem no fundo, arraigado em qualquer um essa história de submissão. Quem nunca se deixou amarrar nem que fosse de brincadeira com um pedacinho de pano ou quem não disse palavras obscenas ao outro? Todo mundo de um jeito ou de outro faz.Sempre tem um de faz a festa com a submissão [sua ou do parceiro]. Não tem sexo sem sacanagem, não dá pra separar. Claro que tem os casais que não fazem nada em nome de religião ou moral, mas esses são calhordas que chegarão aos céus sem ter experimentado os prazeres que certamente o próprio Deus inventou.

Portanto nada mais natural do que essa mulher publicar seus diários de quando ficou durante cinco anos submissa a um homem e dando cambalhotas de prazer com o sexo anal. Era para ser um depoimento, mas acabou chocando o puritano povo norte americano. Bobagem.... Todo mundo nega, mas todo mundo faz. Se não faz, pensa. Se não pensa... putz...

P.S. Triste e vergonhoso mesmo é não saber votar e eleger um boçal, ditador falastrão
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10.9.05

Uma possível angústia

O dia amanhece e não vejo porque me escondo atrás das pesadas cortinas ou, para ser mais exato, dessas cortinas de plástico grosso que impedem a invasão da claridade quando não a desejamos. Esse é o questionamento essencial da vida. Debruçado sobre esse velho caderno de capa dura escrevo e escrevo, ora com caneta tinteiro como em Gritos e Sussurros, ora com essa Bic que simboliza uma certa descrença moderna na escrita. Repito em muitas páginas que a dor maior não é pela falta de dinheiro para comprar coisas porque coisas são coisas e necessito antes de uma determinada serenidade perdida ou jamais encontrada ou procurada.

Concluo apenas que não sei de mim, que somos, eu e todos, perdidos na busca de coisas vãs, que nos distraímos com o que há de mais banal, mas não é assim que se explica. Tudo se resume a uma simples palavras que raramente usamos, palavra levada pela história, pelo tempo, desconsiderada por médicos e filósofos modernos porque a modernidade tira mais do que proporciona. A palavra é ANGÚSTIA. Repito para mim: angústia, angústia, angústia para impregnar meu espírito e meus sentimentos. Troca-se o vocabulário e perde-se a essência. Falamos sem parar do estresse, da ansiedade e da depressão. A depressão é uma mentira, é o erro que Freud induziu e legou ao mundo para a festa dos laboratórios multinacionais.

Nos perdemos na depressão e por ela e em nome dela conversamos, discutimos, fazemos a tal fracassada terapia, lemos e escrevemos livros e teses sempre na busca da sua essência e nos frustramos de não encontrar resposta como se fôssemos culpados de uma figura de linguagem que não representa o sentimento. Não é crível basear a dor na depressão porque ela é rasa, ambígua e não mostra com a clareza que deveria o sentimento primeiro, a angústia que devora. A angústia corrói, faz sofrer, revirar-se, não dormir, tomar tantos e tantos comprimidos e esvaziar tantas garrafas de uísque. Em vão. A angústia, ao contrário das pílulas e do álcool é renitente, aguarda silenciosa e morna o momento de voltar, de dominar outra vez todo o corpo e a mente.

Olho os livros, passo os olhos pelas fileiras de lombadas e vejo títulos fáceis, leitura que não acrescenta nada, não ensina nem mostra o que é o homem, quais as suas necessidades. E choramos ao ver trinta, quarenta anos de leitura jogados no lixo porque é isso, tudo é lixo e sabemos que é lixo, mas perdemos tempo e dizemos que estamos lendo, fingindo uma erudição que resulta patética. Não resta nada na alma, não resta um pensamento profundo, uma análise que satisfaça. Ficamos com histórias e mais histórias, histórias em sua enorme maioria tolas, casos, contos, novelas, panfletos ou grossos volumes que contam [mais] histórias cotidianas de uma vida simples onde não se aprofunda a dor ancestral do homem.

De que adiantam esses comprimidos e essa bebida que anestesia, acalma por momentos, horas, mas que é expulsa do organismo. Vi um filme ontem e uma cena me chamou a atenção. Um homem só, morto numa casa vazia com sangue no chão ao lado do corpo, da boca, da cabeça. Há um cão ali, sem entender, ao lado do dono morto. No fim, foi um câncer de pulmão e não o que pensamos a princípio porque sempre é assim, essa é a verdadeira essência do fim, o câncer. O câncer que está formado em mim esperando a hora certa de se manifestar ou o coração de artérias comprimidas que aguarda seu momento de explodir, tanto faz.

Esse tempo vai chegando enquanto eu vejo a lista dos livros mais vendidos e compro os que estão em primeiro ou terceiro lugar porque sei que vou ler facilmente e depois ele será mais uma lombada falsa que fingirá um conhecimento que não tenho. Pego um livro cheio de referências, referências a obras mais sérias, que fazem pensar e choro porque nada compreendo, porque não conheço nada do que aquele homem está falando, porque ele fala de coisas que não sei. O que sei? Que peças? Que livros, que filmes? Nenhum. Quase nada, eu diria. Quase nada me sobra de consistente e sou o melhor junto a outros que sabem ainda menos. O melhor. Como pode um homem que nada sabe ser o melhor? Motivo de orgulho e soberba? Claro que não. Pura angústia.

Incapacidade de escrever um pensamento nem digo novo, mas sério, algo que me faça pensar mesmo no que estou escrevendo, mas não posso porque não tenho referências não tenho história, não conheço o que o homem pensou no mundo e deixou para que eu aprendesse. Nada. Fui leviano com todos e principalmente comigo fingindo que estava conhecendo coisas para, no fim, olhar para trás e ver uma estrada deserta, uma estrada de bobagens, de irrelevâncias.

Não posso ler um bom ensaio porque não sei do que fala o homem que diligentemente o escreveu. O suicídio de Kafka está longe porque não conheço o pensamento todo e uma frase ou um fragmento desse pensamento não sustentam a ação. A dor da falta da poesia! Vivemos anos seguidos sem a poesia e não vemos os filmes sem tiroteios ou piadas patéticas. Nos agarramos e dois ou três filmes e livros e ficamos repetindo aquilo, ostentando e enganado o mundo, como se aquilo fosse parte de um todo que não tenho.

Não adianta reclamar, não adiantam os psicotrópicos porque o tempo passou, trabalhei em inutilidades, fiz vídeos para o entretenimento barato de uma gente que não sabe, não viu, não entende os porquês [e observe novamente eu falando dessa gente como entidade distante, como seu mesmo não fizesse parte dela que nada sei]. Escrevo aqui sobre cadernos e mais cadernos que cubro de tinta com ditos e falo disso como se lá estivesse o que tenho de bom, despertando uma curiosidade nos inocentes que ainda não perceberam tudo. Lá, nesses tão falados cadernos não existe nada que não exista aqui. E tudo isso voltará ao pó.

E se estão lendo o que está escrito aqui não é pelo mérito de um texto bem escrito ou pelo menos consistente que um editor ou intelectual se interesse e empenhe em editar. Não. É a facilidade leviana da modernidade. A internet que permite que eu escreva e outros leiam. Não há mérito. Sabendo que posso escrever o que quiser, escrevo qualquer coisa, digo das minhas medíocres sensações diante de um mundo que não é medíocre porque uma parcela de homens trabalhou, estudou e produziu uma obra que será referência e acalanto para espíritos verdadeiramente ansiosos por aprender, por conhecer as coisas desses mundo que talvez não estejam tão explícitos. Sou um conhecedor das obviedades, das imagens fáceis, de volumes de tipos grandes, fáceis de digerir para no dia seguinte comentar com outros que fizeram o mesmo. E fingimos todos que conhecemos alguma coisa.

Nada. Ilusão. Não conhecemos nada. Principalmente os que vão ao chão, aos que se valem da internet para difundir trechos, textos, bobagens sabendo que outros virão e vão ler porque é assim. Porque temos remédios que momentaneamente aplacam a angústia que, em outra época, nos levaria ao suicídio. O suicídio é o caminho, mas não fazemos. Não temos motivação. A angústia faz uma dança de aproximação e afastamento com o suicídio, ora chamando, ora afastando e assim vamos levando. Assim levo eu fingindo que as terapias novas resolvem, que os medicamentos modernos curam o que é incurável porque não está no corpo, está no espírito ou naquilo que o cérebro produz. O cérebro produz um mundo onde viajamos em pensamentos. Abstratos. O que se faz com pensamentos abstratos? Como tratar do que não há? Como explicar com palavras ao outro o que é meu, o que construo por minhas percepções, pelas construções e desconstruções de mim, do que sinto e vejo e não sei traduzir. Aí mora a angústia e ela não pode ser entendida, pesquisada e, muito menos, tratada.

Mas existem os que acreditam no que falamos, acreditam que temos um pensamento linear que se traduz num comportamento assim ou assado e não é verdadeiramente nada disso. Quero ver Gritos e Sussurros vinte vezes até penetrar em Bergman de uma forma tão simbiótica que possa eu mesmo me cortar e ver meu sangue escorrer e confundir o sangue com paredes vermelhas. Porque penso em temas como o VERMELHO não apenas por causa de o Vermelho e o Negro de Stendhal, mas porque o vermelho excita e alerta, o vermelho me tira dessa acomodação intelectual e me faz desejar meu sangue.

Não quero mais o sangue do outro porque não me acrescentará nada. Quero o meu sangue porque ele talvez possa me tirar do pó, não fisicamente (já estou enterrado), mas que ainda haja um lampejo que seja do que poderia ter sido, que o câncer não me tire a vida sem que eu dê vazão a minha angústia e impeça de deixar anotado em algum lugar para que outros evitem seguir essas mesma trilha que leva a lugar nenhum, leva a uma dor mortal [que não mata], um sofrimento além dos modernos métodos e medicamentos. Pense com calma e reconheça que tudo isso é bobagem.

Queria escrever mais. Entretanto não tenho estofo nem moral para quebrar regras e diz-se que aqui os textos não podem ser longos, que as pessoas não lêem (e deve ser mesmo verdade porque computador não é lugar para se ler nada). Poderia falar do computador, de como ele seria útil se fosse usado apenas para o trabalho de cálculos, de ciências exatas e não para abrincadeira e o desabafo tolo dos angustiados que o são por sua própria culpa, responsabilidade que pesa pela culpa do não feito. Não era esse o mundo. Não era nada disso. Tudo começou e seguiu errado. Terminará, é claro, no fracasso dos que não sabem escolher, dos cegos, inúteis, incapazes. Sempre, nesses casos (que são maioria) restará tão somente a Angústia.

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9.9.05

Bem verdade que a TVE é uma zona total. Sempre foi. Era de uma maneira gostosa. Todo mundo era feliz, tudo acabava em muito riso, muita cerveja, muita amizade. Hoje, tempos bicudos, a coisa é sisuda, muita, muitíssima gente descontente, uns perguntam aos outros em sussurros pelos cantos dos corredores o que fazer. Não há o que fazer na verdade. Há que esperar porque não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe. A TVE resistirá, claro.

Mas tem muita coisa boa. A programação foi pouquíssimo mexida porque rolam outros interesses. Então dá pra ver a TVE. A TVE é uma televisão simpática ao carioca, o pessoal do Rio se amarra em ver TVE. Isso é bom. Tem muita coisa legal pra ver. Não vou ficar falando de cada coisa. Colocaram muita coisa ruim também, mas isso depois se tira. Tem uma coisa muito bacana: o programa "Arte com Sergio Brito". É muito legal. Sergio Brito está cada vez mais bacana, é bom ver ele comentando cinema, teatro, lendo deliciosamente trechos de livros.

Reclamam comigo.... Não se ri nos corredores. Não se fala abertamente. Não se sabe o que vai rolar...Teve um pessoal que veio me falar meio triste, de baixo astral, essas coisas assim. Me disseram que a TVE está muito melhor por fora do que por dentro.... pois então! Ela é uma televisão, é mesmo pra ser curtida por fora. Tem vida inteligente na televisão sim. Nem tudo é facilmente demolido. Arte com Sergio Brito é o verdadeiro recorte cultural na TV.

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A Hora

Vi nas Cartas. Não há muito o que falar. Apenas um pequeno enunciado para um grupo ainda menor de pessoas que aguardam essa mensagem para buscaram seus pentagramas e bastões, pois é chegado o Dez de setembro de 2005. A data marcada e aguardada por nós há tanto tempo, por tantas noites insones ansiada e que tanto nos fez estudar e pensar.

É chegada a hora da guirlanda ser exposta, da vela ser acesa (tanto a branca quanto a negra, não esqueçam!) porque todo o universo se alinha e não veremos outra oportunidade de libertar o Senhor e a Senhora que libertos são, mas que precisam dos ritos humanos para a Passagem Final quando então tudo será como previsto, teremos o Outro, a Possibilidade.

Os banhos foram tomados e as ervas voltaram à mata. O caderno está completo, todas as anotações foram copiadas e as cópias já foram distribuídas. O anel está com O Indicado, a espada fora da bainha e o Livro, em página certa, aberto. Está assim, dada a mensagem.

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NÃO AO DESARMAMENTO!!!

Esse espaço não é fórum para esse tipo de comentário. Não quero perder meu rico tempinho falando da burrice do povo. Não é má divisão de renda, desemprego nem nada não, é burrice mesmo. Salvo alguns, o brasileiro é burro (também devo ser, claro). Não obstante, ainda que criativo, brasileiro, insisto, é burro. Um exemplo disso é essa ridícula campanha do desarmamento. Acho que isso nunca existiu em nenhum país do mundo e se existiu não deu certo. As armas de verdade estão na mão dos traficantes, dos bandidos que as esquerdas protegem na medida em que elas mesmas reverenciam de forma fragilmente velada as FARC, por exemplo (Valerioduto? Eleição do Lula? Sabe-se lá. Bom lembrar que sumiram com o Olavo de Carvalho que denunciava e acompanhava de perto tudo isso!).
Desarmamento dos homens de bem não diminuiu mortandade nenhuma. Marido que quer matar a mulher, mata com a faca da cozinha. Briga de trânsito é resolvida com porretadas de chave de roda!
Leio no Globo de hoje que foi constatado o desvio de 83 armas, dessas que os cidadãos entregam para esse movimento idiota de desarmamento. E para onde foram as armas desviadas? Apareceram nas mãos de quem? Bandidos e traficantes. Bem feito! O otário que foi lá e entregou seu 38 para defesa pessoal agora está desarmado e ajudou a armar bandidos.
Digo um rotundo não ao desarmamento, um não furioso à proposta de se comercializar armas no Brasil.
QUERO TER O DIREITO DE ANDAR ARMADO E ME DEFENDER. ASSUMO O RISCO QUE CORRO. O ESTADO NÃO ME PROTEGE, QUERO ME DAR UMA CHANCE!
O POVO ESTÁ SENDO ILUDIDO E ENGANADO PELOS MESMOS INTELECTUAIS QUE ELEGERAM O LULA E A QUADRILHA!


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7.9.05

Catando esperança

Não me importa a umidade que brota daquela parede lateral nem a mancha amarelada, nem o infiltramento no teto do banheiro nem se tem banheiro. Não sou eu quem diz porque estou aqui de passagem, breve passagem ou, na verdade, não estou aqui. Diz o meu Mestre que nunca estive aqui, mas não pode ser, deixei marcas no passado que hoje ainda mostram e marcam minha passagem. Agora não estou mais. Não tenho mais nada a escrever e nada mais a ler. Não li nem aprendi o que deveria assim como não desenvolvi os trabalhos que poderiam ser desenvolvidos. Todos deveriam deixar sua marca, como a mão na caverna (sabe do que eu falo?) e pago minha sina por não ter deixado.

Quando deixei de habitar entre os vivos (há alguns anos) fui mal recebido em outro plano por não ter feito nada. Ninguém mais pode saber com certeza se estive por aqui ou não. Ainda podem alguns com sacrifício, mas daqui a cinqüenta anos, por exemplo, nada. Pó sobre pó. A menos que se considere todo o pó da Terra história. História de homens. Não. Seria injusto com os que foram muito mais do que pó.

Viajo de um estágio ao outro, ora nessa, ora naquela dimensão. Ninguém sabe como estarei daqui a dez minutos (nem eu). E não entendem [como de resto não poderiam entender]. Não existem mais corretivos nem terapias nem medicamentos nem estímulos que resultem em mim o que resultam nos outros porque jamais se saberá o que sou naquele momento. Sou um "não sou" embora "seja" muitas vezes. Me disseram que pode-se vir à passeio [já contei isso aqui]. Não vim à passeio, vim para trabalhar, mas fracassei.

Nenhum escrito ficou, nenhuma imagem, nenhuma atitude especial, nada. Ficou a lembrança numa mulher velha que logo também não será e o resto não sabe. Sou um místico, não um poderoso místico, mas o conhecimento de mim é superficial, é sobre aquilo que escrevo e sabe-se lá o que escrevo. Posso escrever tudo ao contrário como quem lê através da utilização do reflexo de um espelho (e tem misticismo aí sim!). Nada em mim é garantido, nada em mim é verossímil, nada é palpável. Não sou palpável, sou um texto que aparece em telas, um texto que brinca, ri e chora [chora mais do que tudo]. Posso momentaneamente ser um texto que comove, mas texto, palavras não impressas que, mais cedo ou mais tarde, desaparecerão desse universo virtual.

Sim, posso dizer que sou virtual e isso quer dizer muitas outras coisas. Não sou virtual nesse meio de transmissão que se utiliza de zeros e uns. Sou virtual em carne e osso, sou mais do que virtual, sou holográfico porque intangível. Nem mesmo eu, em momentos de maior desespero, consigo me tocar. Não me toco porque não me alcanço, não me alcanço porque meu corpo, meu rosto e minhas vestes são modelados aleatoriamente por minha imaginação, por um pensamento fugaz do que poderia ser.

É uma bobagem falar em saúde, em self, em imaginário. Não estou no imaginário popular como um saci ou uma sereia. Não sou sereia. É muito frustrante não ser sereia porque não se é pensado. Todos são pensados, todas as sereias, elfos, duendes, todas as coisas não vistas, toda a fantasia do imaginário tem seu tempo e ritmo, sua imagem imaginada. Não estou nesse rol. Estou antes. Vivo no limbo do nada e do antes do imaginário servindo para conversas fugazes quando não há mais nada a se fazer. Qualquer forró pode ser mais interessante do que conviver com letras que aparecem, que somem, de desdizem, que buscam uma esperança. Sou um catador de esperanças. Caminho de cabeça baixa pela praia da vida catando uma esperança.

Mas as cartas me dizem que o tempo não pára, a areia da ampulheta cai inexorável, cai independente de minha busca, de minha obra ou de qualquer outra coisa e ser holográfico ou virtual não altera o movimento da areia da ampulheta. As castas me dizem que não sou. Que não estou mais aqui, não morri oficialmente por um lapso astral, mas já vivo como um morto, enterrado solenemente num mausoléu com televisão e banheiro. O que restaram (depois da última fogueira de cadernos) foram essas mil e duzentas páginas que não existem de verdade (tentem pegar e entenderão). Olho a fumaça branda do incenso e o pequeno lume da vela e pergunto o que sou e onde estou. Silêncio. Nesse universo não existe resposta, não existe caminhada porque todos estão levando suas vidas, todos estão em busca de carne. As pessoas, é isso, precisam de carne, seus corpos anseiam por carne e não sou carne, sou uma proposta de pensamento inconcluso e virtual.

Não sou o único entretanto e não sou pior nem mais infeliz do que outros. Existem milhões como eu, muitos que nem tem essas mil e duzentas páginas virtuais, muitos que não sabem o que escrever e falam só coisas ainda mais inúteis. Sou o filé da holografia, sou o luxo virtual, o sucesso do nada. Caminho então por todos esses caminhos nem mais nem menos do que os outros, dizendo o que tenho para dizer e pensando que a Terra está salva porque tem Antunes Filho, porque tem o balé da Débora e tantas e tantas outras coisas boas e que valem realmente a pena. E insisto que um livro, qualquer que seja, sempre será muito melhor e mais útil do que o que houver de melhor nesse espaço. Bye.

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6.9.05

Para onde vou agora, me pergunto e não vejo. Vejo a casinha com fumaça que sai da chaminé, mas não pode, não pode nada, não pode seguir pra frente nem pra trás porque está tudo emperrado. Tomo os banhos como deve ser porque obedeço porque quero e espero que aconteça. Não foi ainda, mas ainda é cedo, tenho que seguir, tenho que ir em frente, ir mais. Olho em volta e nada, só tiro e canivete e pivete e rua e asfalto tão molhado que eu saio de mim e vejo a casinha e quero fugir, mas tenho que mudar tudo, todas as coisas e não tenho força, que confusão, porque tudo assim, agora, onde foi que eu me perdi, onde esfacelei e deixei caquinhos que não querem mais se juntar?
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É a encruzilhada da vida
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Reza

Visitei o inferno na insônia acordando a cada trinta minutos. Acordando, olhando a hora, desligando a televisão achando que estava ligando e ligando achando que estava desligando. Trinta minutos sempre. Cravado. Não tenho hora da estrela, não tenho paz. Talvez o álcool traga mais paz do que os tranqüilizantes. Não, não pode ser. Tomo mais então. Cozinha. Água da bica, quente, pílulas. Sempre pílulas. Falta fé porque a fé não costuma falhar. A fé não falha o que falha é a fé na fé (ou a falta de fé) ou ainda esse vai e vem na fé. Peço a Deus, Oxalá e todos os santos que estão nos livros e os que não estão, os que conheço e desconheço. Falo de todos e com todos entre um e outros trinta minutos. A pancada no sonho. Garrafada embrulhada em jornal. Embrulha-se bem uma garrafa em jornal e bate na cabeça. Quebra tudo. O dia inteiro lembrando. Não tem como fugir. Sempre mais remédios, eles são sempre responsáveis e eu irresponsável. Me jogo no chão e percebo acima da minha cabeça o lume da vela que arde há dias e por outros dias arderá porque assim deve ser, porque são sete dias e sete noites, porque sete é um número cabalístico e busco meu livro de orações. Há um espírito naquele quarto, eu sempre soube que havia. Quem é? Pode falar. A vela está aí mesmo... não fala, mas não tem nada. Tento rezar. Dormir. Não dormir não porque volta a cabeça esfacelada, quebrada, arrebentada, volta a noite e seu negror absoluto que apavora e não saio. Chove como se os céus estivessem avisando, mandando mensagens e e eu espero, olho e espero.
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Saravá

Tinha razão quando dizia que a vida é claudicante. Não ouvi e quebrei a cara. Não percebi, não vi. A gente não vê as coisas e se esborracha depois. Mato. Folha. Terra molhada, relva, orvalho. Cão, cadela. Cerca, cercado, cerca viva, trepadeira de verão. Não vi.

Molhei a roseira e desbundei com as rosas. Não se pode desbundar apenas com as rosas. As rosas são as rosas, mas tem grama, pedra de rio, poço, céu, montanha, gado que vai e volta para pastar. É preciso olhar para tudo mas olhar para ela, ela que é a senhora, entender que a vida é claudicante, olhar para a vida e não se deixar envolver na poeira do carro que passa.

Cigarros, muitos. Nada mais. Café com requeijão. Minas. Gerais. As Gerais. A história de Ouro Preto, a história do que não foi visto, a história de ver rosas molhadas de orvalho, relva úmida, nuvens baixas, galos, névoa, bruma e cachoeira. Tem a casa e o ritual do fogo feito dentro de casa, na lareira que arde em fogaréu.

Menino que assa batata no fogo da lareira. Guirlanda no abacateiro e tocha acesa para o Senhor das Esferas. Lamparina, querosene, reza, reza forte e silêncio e a abóbada celeste que gira, estrela cadente que faço meu pedido para mais, para Oxalá olhar por nós e deixar o tempo parado, deixar, Oxalá, que nada interfira no que está, nada afaste a Deusa, a Senhora porque todos somos filhos da Deusa, todos precisamos desse útero tão perto.

Como não estar ao lado do útero? Como não estar respirando ao lado do útero, como Senhor das Esferas, como minha Yemanjá [que te abandonei e não festejei nem reverenciei]. E agora que estou aqui só, prostrado em frente ao altar e a vela arde, o que dizer agora? Não há volta eu sei, meu Senhor, não precisa me olhar assim.

Mas podemos aprender, podemos ver e reconhecer. Nunca mais as estrelas cadentes, nunca mais a festa do fogo, mas o aprendizado da vida claudicante, do alto e do baixo. Aprender a não abandonar jamais nosso pai, não abandonar jamais toda a mata, as cachoeiras, o trovão e o mar. Aprender que sou pequeno, sou nada, apenas para servir e claudicar. Saravá!

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Ocre

Rua vazia. Viela. Vento. Calor e vento. Cidade ocre, poeira de argila. Existe? Caminho pelo meio da rua com o bolso cheio de pílulas. Na outra mão deveria ter uma garrafa de cachaça, mas não tenho... O sino da igreja toca e eu olho... Deus....onde está?
Minha busca por Deus vem de tantos anos que nem lembro mais. Quantas velas e quantas pílulas?

Quantas pessoas caminhando sem saberem de nada. As pessoas não sabem de nada. Não percebem o que é ou pode acontecer. As pessoas só olham o que vêem. Nossa visão é restrita. Todos os sentidos, restritos... Nossa Senhora e Yemanjá (duas numa), mar de ondas grandes que esparramam na areia fina...conchas

Coração que bate, bate, bate até parar de bater. Gente que nasce e gente que morre e não sabe nem porque nasce nem porque morre. Caminhantes levando nas costas um saco chamado vida. Seres, como a Terra, estão perdidos no espaço, não existem regras, não existe nada. Apenas o ar que entra e sai. Muitas vezes tem dificuldade de entrar e sair. Homem morto no asfalto. Gente que olha. Tráfego de almas.
Vou em frente nessa cidade ocre. Parece vazia, mas vejo um ou outro. Olhar amarelo, nenhuma esperança.

Esperança... a palavra mais usada, o sentimento mais presente, a expectativa de. A possibilidade de. A negação de um mundo que não quer, não queremos. Esperança de amanhã ser melhor quando amanhã é o ontem, o antes de nascer, amanhã pode ser a morte. Temos então a esperança na morte. Ninguém percebe que toda a sua expectativa, todo o seu anseio e esperança estão voltados para a própria morte. Porque a vida é a morte anunciada. É o caminho. Não, a fé pode ser o caminho. A magia é o caminho. A imagem que representa a entidade, o lume da vela, o cântico triste que implora ajuda. A carta que mostra a temperança ou o renascimento ou o enforcado...

Estou nessa cidade ocre atrás da mulher das cartas. Ela está em algum desses casebres porque veio para cá e nunca mais viu a rua. Eu sei, eu li, outras pessoas sabem...ela está bem aí, numa dessas portinhas, no fundo de um cômodo sórdido. Com suas velas, seus cheiros, suas cartas. Dizem que é imortal, mas não é verdade, é apenas velha.

É preciso entender o oculto (embora ele não se explique)... então não é entender, é olhar para o oculto, para o que não vejo, é sentir se a energia passa. Espíritos estão aqui? Não? Onde estão? Não existem espíritos? Não se sabe? O que é, afinal? Caminho para a casa ocre que acho ser a morada da mulher das velas.

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